DIFERENÇAS CULTURAIS E BARREIRAS NA LINGUAGEM - Blog da Moderna

DIFERENÇAS CULTURAIS E BARREIRAS NA LINGUAGEM

Até eu vir morar aqui, sempre achei que por ter sido criada numa família japonesa e com a avó mais-japonesa-que-tudo-no-mundo, eu não sentiria muita diferença se morasse no Japão. Cresci ouvindo na escola que eu era “japa”, que meus costumes eram mais japoneses do que brasileiros e que deveria ir pro Japão. Honestamente, até acreditei nisso.
Talvez por isso, quando eu cheguei aqui, o choque de realidade veio com tudo numa voadora na cara. Eu, iludida de tudo na vida, cheguei no Japão achando que ia ser tranquilo. Mas na vida real, cheguei aqui e levei um combo “barreira de linguagem-cultura-e-falta-de-dinheiro”.

Eu sabia que eu não sabia japonês, mas por outro lado, acreditava que aquele japonês da avó falando comigo a vida toda me ajudaria a sobreviver aqui. Na primeira vez que vim ao Japão, numa escala de 0 a 10, eu entendia tipo nível 1… Como o sonho de aprender a falar japonês, aliado à vontade de viver aqui era algo muito intenso na minha vida, vim com a premissa “A melhor forma de aprender uma língua é vivendo no País onde essa língua é falada”, mas eu não achava que o perrengue ia ser tão grande. 

Logo após chegar no Japão, o meu então namorado me levou pra casa dele pra me apresentar à família dele. Ele fala inglês, mas a família não fala. Na mesma semana viajei com a família toda para a casa de praia deles, em Izu, província próxima de Tokyo. Eu, ele, os pais e a avó. Eu estava simplesmente travada. Com medo de falar alguma besteira, não sabia nem me apresentar em japonês, não conseguia manter uma conversa nem montar uma frase inteira que fizesse sentido. Também tinha a tensão toda de causar uma boa impressão pra família do bophe e a preocupação em ser aceita numa família japonesa, sendo estrangeira. 

Para minha surpresa, fui muito bem recebida e a avó dele tentava interagir comigo de qualquer maneira. Ela falava muito devagar as palavras para me fazer entender e apontava os objetos, fazia mímica, mandava o bophe traduzir nossa conversa… 
A primeira viagem para Izu

Eu sempre ouvi que os japoneses são extremamentes fechados e introvertidos. Hoje acho isso um mito. Não que não haja pessoas assim aqui, mas como em qualquer lugar do mundo, há personalidades de todos os tipos. No meu caso, eu tive sorte por ter encontrado uma família que me aceitou e me adotou. Mas não por isso, não foi difícil a adaptação.

Aprender a tomar banho de onsen, a fazer comida de ano novo, a me apresentar, a entender o que o bophe pensava e aprender a aceitar (ou não) certos comportamentos, perder o costume de gesticular com as mãos quando falo, a não olhar tão direto nos olhos da pessoa com quem estou conversando, tudo isso foi bem hard pra mim e até conseguir conviver bem com isso, rolaram muitas lágrimas, noites mal dormidas (e não dormidas também), muita gastrite e discussões.

Até hoje eu acho difícil muitos pontos da cultura daqui. Já se passaram quase 2 anos e meio morando aqui e ainda não entendo muito bem os impostos aqui, como funciona meu plano de saúde e mais vários outros detalhes burocráticos da vida aqui. Não que eu entendesse muito bem no Brasil também, mas né…

O que levo de lição dessa vida que escolhi há 2 anos é que tudo o que ouvi sobre os japoneses serem frios, não abraçarem, não demonstrarem carinho, é mentira. A forma que eles demonstram é diferente da forma que os brasileiros demonstram. No Brasil é muito comum se abraçar e se tocar, aqui não é. Muitas vezes as pessoas se assustam se você encostar nelas. Eu mesma, acabei me acostumando a isso e quando alguém vem encostando em mim eu me sinto desconfortável, a não ser que seja muito amigo ou que seja mulher. Cumprimentar encostando nem pensar. 
Mas isso não quer dizer que as pessoas não se abraçam. Hoje mesmo, fui conhecer a unidade nova do restaurante em que eu trabalho e uma amiga minha trabalha lá. Ao me ver, ela veio com os braços abertos e me abraçou. Um amigo que trabalha comigo no bar também, não raramente chega do meu lado e me abraça. Eu acho bonitinho e de certa forma, muito pura a forma que eles interagem com seus queridos. 

O que eu sinto aqui é que os detalhes significam muito. Por exemplo, quando fiz essa viagem pela primeira vez com a família do namorado, a avó dele, mesmo sem conseguir conversar comigo direito, foi colhendo florzinhas pelo caminho em que passávamos em um dos nossos passeios e fez um arranjo de cabelo e colocou em mim. Se isso não é uma forma singela e genuína de demonstração de carinho e delicadeza, eu não sei mais o que poderia ser.
Em Izu, na minha primeira viagem com a família do namorado, com o arranjo de flores que a avó dele fez 
Foto por Sho Fujii - visitando uma montanha de azaleas com a família dele
Existe uma expressão que eu acho que define bem a forma de viver aqui: “空気を読める”, que significa, literalmente, “ler o ar”. Significa o que seria para os brasileiros, “pegar no ar” ou “para bom entendedor, meia palavra basta”, mas no caso aqui, sem a palavra. Um olhar, uma levantada de sobrancelha, uma leve arqueada nos lábios, ou uma leve inclinada de cabeça deve ser suficiente para o entender o que o outro quer dizer. Isso pra mim é o mais difícil até hoje, mas pouco a pouco estou aprendendo!
Ainda não consigo me expressar da forma que gostaria e muitas vezes ocorrem mal entendidos por eu não ser fluente na língua e não ter a mesma cultura que eles, mas depois de 1 ano morando aqui, comecei a fazer amigos japoneses e a interagir mais com eles. Acho que tem sido a melhor forma de aprender a língua e o comportamento das pessoas daqui!


De qualquer maneira, com seus prós e contras, ainda acho Japão um lugar ótimo de se viver, com muita civilidade e educação, limpeza e amor. Porque EXISTE AMOR EM TOKYO SIM! <3 <3 
Nosso primeiro hanabi (fogos de artifício) juntos em 2015

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